Nicole Silveira comemora resultado nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026
Nicole Silveira comemora resultado nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026 (Gabriel Heusi/COB)

Em oito anos, Nicole Silveira vivenciou algo que sequer imaginava. Os primeiros treinos no skeleton em 2018 a levaram à elite, com pódios em Copas do Mundo e primeiras posições no ranking. Porém, chegou o momento de desacelerar. Na temporada 2026/2027, ela quer levar o esporte de outra forma, mais fora do que dentro da pista - até para decidir se continua, ou não, até os Jogos Olímpicos de Inverno de 2030, na França. 

A revelação foi dada em entrevista exclusiva ao Brasil Zero Grau após o anúncio da seletiva que ela está organizando com a CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo). Nicole será a treinadora do grupo e ficará próxima dos jovens que serão preparados para os Jogos da Juventude de Inverno de 2028, que acontecerão na Itália. 

Ao lado da esposa Kim Meylemans, que recentemente anunciou sua aposentadoria do circuito internacional, a brasileira estará totalmente dedicada aos jovens atletas nesta temporada. Ela cuidará tanto do período de adaptação nas pistas de gelo quanto nas corridas classificatórias entre 6 e 14 de fevereiro em Cortina (Itália) e St. Moritz (Suíça). 

Vestir o capacete e participar de provas nesta temporada do skeleton? Uma ou duas, apenas, se o calendário permitir. 
Estou levando esse tempo pós-competição, pós-Olimpíadas, para decidir. A Kim já anunciou que vai parar, então para mim ainda não sei. Acho que essa temporada vou levar mais para o lado de técnica, para ajudar a achar novos talentos, talvez fazer uma ou duas competições e ver o sentimento que tenho com o esporte. Até ficando do outro lado da pista para ver quanto que vou sentir saudade ou se tenho aquela vontade de voltar.
Depois disso, tudo ainda é uma incógnita. Nicole Silveira admite que sequer pensou no futuro do Time BB. A preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2030, nos Alpes Franceses, vai depender do sentimento que ela - e os jovens atletas - tiverem nesta temporada. A única certeza é a presença de Kim Meylemans como treinadora caso se aventure em mais um ciclo. 

Seletiva de skeleton é forma de 'facilitar' jornada

Esta não será a primeira vez que Nicole passará o que aprendeu no esporte a jovens atletas. Durante sua carreira no futebol, também deu aulas a crianças. No skeleton, porém, o objetivo é ir além: ela quer 'facilitar' a jornada de novos talentos, recrutando-os não apenas aos Jogos da Juventude de 2028, mas também para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2030 e 2034. 

Hoje, além dela, apenas Eduardo Strapasson, 18 anos, compete regularmente pelo país nas principais competições da modalidade. A meta é ampliar essa delegação, selecionando ao menos dois homens e duas mulheres nesta temporada de aprendizado com a própria trajetória da atleta brasileira. 
Gosto muito de ensinar e de passar o que aprendi - e tentar conseguir ajudar alguém a, talvez, ultrapassar as dificuldades que tive. E eu gosto muito dessa ideia de poder ajudar a compartilhar as informações que tenho.
Lançada oficialmente em maio, a seletiva (que acontece em conjunto com os trabalhos do monobob e do luge) se estenderá até outubro de 2026 por meio de avaliação física e atlética dos interessados. Aqueles com melhores perfis participarão de um período de adaptação em janeiro de 2027 antes das primeiras competições em fevereiro. 

Confira entrevista completa com Nicole Silveira

Satisfeita com desempenho, Nicole Silveira fez história nos últimos dois anos

Se a 13ª posição nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 em Pequim (China) a catapultou à elite do skeleton mundial, as últimas duas temporadas consolidaram esse status com resultados históricos para os esportes de inverno do Brasil. 

Em novembro de 2024, conquistou a primeira medalha do país em uma etapa da Copa do Mundo de esporte olímpico de inverno com o bronze em PyeongChang (Coreia do Sul). Repetiu a terceira posição em St. Moritz (Suíça) e manteve-se no top 8 em sete das oito provas que disputou até março de 2025. 

No Mundial realizado em Lake Placid (EUA), obteve a quarta colocação, também um resultado inédito para o Brasil. Desempenho que, a um ano dos Jogos Olímpicos de Inverno, encheu os torcedores brasileiros de esperança por um um feito histórico. 

Porém, a temporada olímpica não começou do jeito que ela imaginava. Ainda se recuperando de uma lesão sofrida no início de 2025, os resultados custaram a aparecer. Foram quatro provas seguidas fora do top 10 (uma sequência que não acontecia há mais de dois anos). Depois, foi oitava em Winterberg (Alemanha) e novamente bronze em St. Moritz (Suíça) - seu terceiro pódio. 

No torneio olímpico em Cortina, fez tudo o que estava a seu alcance. Terminou na 11ª posição, atrás das atletas de Alemanha e Grã-Bretanha, que puderam utilizar equipamentos melhores especificamente criados para a disputa. Por isso, ela prefere comemorar seu desempenho, sabendo que se tornou uma atleta bem melhor do que era há dois anos
Olhando para trás, eu sei que dei meu 100%. Não tinha nada que não fiz ou deixei de fazer, então não me arrependo de nada. Eu sei que estava descendo e pilotando melhor o trenó e correndo mais rápido do que estava no ano retrasado. Não tinha muito mais que eu poderia fazer e foi mais ou menos a mesma coisa nas Olimpíadas: consigo assistir à competição e dizer que dei o meu melhor. 

Nicole Silveira leva 'vida normal' com Kim Meylemans

Enquanto não sabe se continua ou não no skeleton, Nicole Silveira se permite levar uma 'vida comum' ao lado da esposa Kim Meylemans. Morando em Calgary, no Canadá, elas dividem uma rotina que nada lembra as constantes - e cansativas - viagens entre uma etapa e outra da Copa do Mundo. 

A brasileira, por exemplo, segue com seu trabalho de enfermeira no Hospital infantil. A belga, recém-aposentada da carreira esportiva, desenvolveu seu próprio ateliê de viagens. Assim, não se veem mais "24x7" como Nicole gosta de brincar, mas apenas no fim de tarde, quando ambas retornam para casa. 
Tem sido bom tentar ver como é a vida sem morar dentro da mala, né. A gente conseguiu esvaziar as malas e colocar a roupa no guarda-roupa, isso foi diferente!
Com isso, possuem mais tempo para fazerem outras atividades físicas sem se preocuparem se irão machucar ou prejudicar o desenvolvimento no skeleton. No próximo mês, irão adotar um cachorro, dando mais um passo na rotina do casal. 

Isso, claro, até começar a temporada de inverno em outubro - e Nicole Silveira decidir se continua ou não no circuito enquanto treina os novos talentos do Brasil.