Quais são as perspectivas do Brasil para os Jogos Olímpicos de 2022?

Delegação brasileira na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de 2018 (Reprodução)

"China já começou faz tempo". Foi com essas palavras que Stefano Arnhold, presidente da CBDN, começou a descrever os próximos passos da entidade para este ciclo olímpico. De fato, nem bem acabou os Jogos de Inverno de PyeongChang, o Brasil já precisa iniciar seu planejamento para os Jogos de 2022, em Pequim, se quiser manter a evolução das modalidades de neve e gelo no cenário internacional. 

Após encerrarem o melhor ciclo olímpico de suas histórias, tanto a CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve) quanto a CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo) sabem que terão mais dificuldades nos próximos quatro anos. Não só para superarem seus resultados, mas para lidarem com um orçamento menor do repasse da Lei Piva (recuo de 17% e 28%, respectivamente). 

Contudo, as sementes plantadas ao longo do período entre 2014-2018 parecem que darão frutos para algumas modalidades, o que possibilita uma perspectiva bem otimista nas duas confederações pelo menos neste início de trabalho. Tanto que o país certamente poderá classificar um número de atletas similar aos Jogos de Sochi - com a diferença de terem melhores resultados internacionais (confira as chances de cada esporte abaixo). 

Na CBDN, o primeiro passo para Pequim será dado em abril, com a eleição para a presidência da entidade. Após 16 anos, Stefano Arnhold deixará o cargo por conta da lei que limita mandatos de dirigentes de federações esportivas a uma reeleição (a lei entrou em vigor em 2013 e ele foi reeleito em 2014). Karl Pettersson, candidato único, será o novo presidente e responsável por iniciar o planejamento que começará em maio com os testes físicos e a preparação para a temporada sul-americana de inverno. 

Já para a CBDG, o ciclo olímpico de 2022 começou em março com um período de treinos para novos pilotos de bobsled e as atletas de skeleton. "Temos cinco modalidades que nos dão um cenário bem interessante para os próximos quatro anos. Bem diferente de Sochi, quando encerramos os Jogos Olímpicos com praticamente nada e tendo que iniciar um trabalho", afirma Matheus Figueiredo, presidente da confederação. 

Esqui Alpino

O ciclo olímpico do Brasil no Esqui Alpino tem tudo para ser um dos mais promissores da história. Representante nacional nos Jogos Olímpicos de PyeongChang, Michel Macedo, 19 anos, deve crescer ainda mais nos próximos quatro anos. "Ele pode chegar à marca abaixo dos 20 pontos FIS", comemora Stefano Arnhold, presidente da CBDN - índice suficiente para classificá-lo ao disputadíssimo circuito da Copa do Mundo, por exemplo. Além dele, o time masculino também conta com Guilherme Grahn, 20, ausente desta temporada por uma lesão no tornozelo, mas que também deve chegar à marca de 30 pontos no Slalom, sua especialidade. Entre as mulheres, Isabella Springer, 17, será a principal atleta e certamente atingirá, pelo menos, o índice B olímpico nos Jogos de 2022. O mais provável é o país conseguir duas vagas (um homem e uma mulher). 

Esqui Cross-Country

É a modalidade de neve que o Brasil possui mais praticantes e, portanto, melhor possibilidade de crescimento neste ciclo olímpico. Entre as mulheres, Jaqueline Mourão deve encarar mais um ciclo olímpico e apostar nos 30km, mas ela terá novamente a companhia de Bruna Moura, Gabriela Neres, Mirlene Picin e, provavelmente, Eduarda Ribera, que disputa a categoria sub-16 do rollerski. Entre os homens, Victor Santos seguirá na disputa, mas ele ganhará a concorrência de mais jovens provenientes do projeto Social Ski na Rua, como Rhaick Bonfim, promessa que pulveriza marcas em categorias infantis e que deve estrear na categoria adulta neste ciclo olímpico, além do Matheus Vasconcellos e Manex Silva, jovens que moram na Europa. Duas vagas (um homem e uma mulher) certamente serão garantidas, mas se a Jaqueline Mourão - ou alguém do masculino - conseguir ficar no top 300 do ranking pré-olímpico, é possível o Brasil ganhar mais uma cota para Pequim. 

Esqui Livre Aerials

Ausente dos Jogos de PyeongChang no esqui livre aerials, a CBDN possui três jovens que devem estrear na modalidade neste ciclo olímpico: Luana Antunes da Silva, 17 anos, Beatriz Sales Silveira, 16, e Stephany Souza Lima Costa, 15. Elas passaram os últimos anos apenas aperfeiçoando a parte física e os treinos acrobáticos. A expectativa da entidade é que elas já entrem no circuito internacional em um bom nível de competitividade e, assim, garantir uma ou até duas atletas no Esqui Livre Aerials em Pequim. 

Snowboard

Isabel Clark reinou no Snowboard nacional nas últimas duas décadas e participou das últimas quatro edições olímpicas. A atleta, porém, já anunciou sua aposentadoria de competições oficiais, abrindo um vácuo na modalidade. Luma Maio, 16 anos, estreou na temporada passada e é a única rider feminina ativa do país, mas ainda é cedo para descobrir sua capacidade de lutar por vaga olímpica. Entre os homens, Gabriel Irlandini, 19, é a principal promessa, mas também precisa evoluir muito para conseguir a classificação para os Jogos de Pequim. Preocupada, a CBDN iniciou a transição de atletas de Sandboard, modalidade semelhante praticada na areia, para o Snowboard. Bruno Martins é o principal expoente e fez sua estreia em agosto de 2017. Diante de tantas incertezas, a própria entidade imagina ser difícil obter uma vaga em 2022. "A nossa geração de atletas é muito nova. É mais viável pensar em 2026", comentou Stefano Arnhold, lembrando também dos irmãos Augustinho, 12, e João Teixeira, 10. Hoje, é improvável pensar que o Brasil consiga uma cota no Snowboard para os Jogos de Pequim. 

Biatlo

A CBDN montou uma equipe fixa, por assim dizer, na última temporada, com Mirlene Picin, Gabriela Neres e Bruna Moura no feminino, e Leandro Lutz, Altair Firmino, Fabrizio Bourguignon, Lucas Lima e Matheus Vasconcellos entre os homens. A tendência é que estes atletas prossigam na modalidade no próximo ciclo olímpico, mas o Brasil novamente irá esbarrar nas difíceis regras de classificação da modalidade. Em PyeongChang, a IBU (União Internacional de Biatlo) passou a levar em conta a temporada da Copa do Mundo ao invés do Mundial. Dessa forma, os brasileiros precisam melhorar seus desempenhos para disputarem o circuito internacional e conseguirem os pontos necessários no ranking das nações. A grande esperança é ver a evolução de Matheus Vasconcellos, 17 anos, que demonstra grande capacidade nos tiros e pode crescer muito nos próximos anos. Contudo, assim como o Snowboard, hoje é improvável pensar em uma vaga olímpica para o Brasil no Biatlo. 

Bobsled 

Após a 23ª posição em PyeongChang, o Bobsled brasileiro tem como missão manter a evolução nos próximos quatro anos. Vai ser o primeiro ciclo olímpico que a equipe da CBDG terá uma estrutura completa no país (treinos físicos e pista de push) para treinamento durante o verão do hemisfério norte. A entidade também reforçou a parceria com o time dos Estados Unidos para utilização do centro olímpico de Lake Placid. O principal desafio agora é promover uma renovação da equipe, principalmente os pilotos (algo que já foi feito em março, com cursos de pilotagem para Marley Linhares e Erick Vianna), e colocar a equipe feminina comandada por Sally Mayara para treinar e competir de forma assídua. A perspectiva é a melhor possível, com possibilidade real de classificação olímpica nas três categorias: 4-man, 2-man e feminino. 

Skeleton

Após três anos, a CBDG volta a apostar no skeleton. Dessa vez, porém, com a criação de uma equipe feminina. Nicole Silveira e Marina Tuono, que participaram da última temporada no Bobsled, resolveram migrar de esporte e já participaram de treinos em Lake Placid em março. Elas devem estrear na modalidade na próxima temporada e a expectativa é que uma delas possa garantir a inédita classificação olímpica em 2022. "Elas já estão em um nível interessante de treino e possuem tipo físico ideal", garante Matheus Figueiredo, presidente da entidade. Entre os homens, Gui Pádua já avisou que participará deste ciclo olímpico e a CBDG espera recrutar novos talentos e iniciar um projeto contínuo - ainda que disputa masculina seja mais equilibrada e acirrada. Se as meninas evoluírem bem, é provável o Brasil ter uma vaga entre as mulheres. 

Curling

O Brasil cresceu muito no Curling nos últimos quatro anos, principalmente na categoria Duplas Mistas. O país já se estabeleceu no Top 25 da modalidade e tem grandes chances de ficar entre os dezesseis melhores neste ciclo olímpico. Em PyeongChang, apenas oito duplas participaram da estreia da categoria em Jogos Olímpicos. Contudo, há conversas para aumentar esse número para 16. Se isso se concretizar, os brasileiros terão chances reais de classificação nos Jogos de 2022. Entre as equipes, o caminho é mais longo. A WCF (Federação Mundial de Curling) democratizou a classificação ao Mundial e aos Jogos Olímpicos, mas as equipes do país precisam treinar e jogar mais para lutarem pela vaga olímpica. 

Patinação Artística

Após fazer história em PyeongChang e passada a tristeza pelo programa longo, Isadora Williams até se mostrou disposta a encarar mais um ciclo olímpico - desde que tenha apoio financeiro para encarar mais quatro anos de treinos e competições. Aos 22 anos, a brasileira já mostrou que tem capacidade e talento para conseguir a vaga olímpica daqui quatro anos. Mas enquanto a atleta ainda vai resolver seu futuro com a CBDG, a entidade já precisa começar a preparar novos atletas. A dupla Karolina Calhoun e Michael Valdez, na Dança no Gelo, estará na categoria senior a partir da próxima temporada e, se competir regularmente, pode sonhar com a vaga olímpica. Já Amanda Kalluf e Felipe Kubo, que devem estrear na categoria júnior nesta e na próxima temporada, também têm potencial não só para 2022, mas também para 2026.  

Patinação Velocidade 

Marcelo Donadio, 23 anos, Gabriel Ohnmacht, 17, e João Victor da Silva, 16, são os três atletas brasileiros na patinação de velocidade e possuem índice para a disputa da Copa do Mundo (Gabriel e João na categoria júnior). Se eles mantiverem essa evolução nos próximos anos, certamente irão brigar por vaga olímpica em 2022 e 2026. Hoje, o que impede é a parte burocrática: a longa ausência de atividade na modalidade fez o Brasil perder sua filiação na ISU e a CBDG ainda não conseguiu reconquistar o registro. Sem isso, os atletas não podem participar da Copa do Mundo e do Mundial, item fundamental para confirmar o índice olímpico. A entidade precisa correr contra o tempo para permitir que os três atletas possam competir nos principais torneios da patinação de velocidade neste ciclo olímpico. 

Luge e Hóquei no Gelo

São duas modalidades no gelo que o Brasil dificilmente brigará pela vaga olímpica. No Luge, o país tem atletas que participam regularmente do Luge Natural. Fazer uma transição desses participantes para o luge olímpico é inviável por dois motivos: o próprio desinteresse dos atletas em mudar de categoria e as diferenças gritantes entre as duas categorias (até o trenó é diferente). A última atividade brasileira no luge olímpico foi com Gabriel Bernardes em 2015. A não ser que a CBDG encontre um atleta nesta temporada, o Brasil seguirá sem representante neste ciclo olímpico de 2022.

No hóquei a situação é diferente. O país possui atletas de inline que jogam no gelo e representam a seleção nacional no Pan-americano desde 2014. Contudo, para brigar pela vaga olímpica, o país precisa participar do Mundial para entrar no ranking internacional e, assim, se credenciar à disputa da classificação olímpica. O problema é que, para isso, a seleção precisa participar de torneios oficiais que contam pontos para este ranking - algo que o Pan não possibilita. A única alternativa do Hóquei no Gelo brasileiro é começar a competir vários torneios internacionais. O "único problema" é encontrar recursos para isso: diferentemente das outras modalidades, que levam um, dois, no máximo seis atletas para eventos internacionais, no hóquei é necessário levar pelo menos 23 jogadores. 

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